O amor do Pai, fonte da Misericórdia

Queremos compartilhar com vocês uma série de reflexões sobre a Misericórdia de nossos queridos padres e fundadores o Pe. Antonello Cadeddu e o Pe. João Henrique. Mergulhando ainda neste ano da Misericórdia que vivemos poderemos juntos experimentar este mistério de amor que vem ao encontro de nossa miséria.

De fato, Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17).

Gostamos de pensar no Amor do Pai como uma fonte inesgotável de água puríssima, cristalina, que jorra sem cessar seu Amor de forma incondicional, plena, infinita e gratuita. Os padres da Igreja chegaram a representar, nesta imagem, o mistério de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, Trindade de Amor e Misericórdia Infinita. Eles veem o Pai como esta fonte de água pura – fonte e origem eterna do Amor Infinito. Enxergam o Filho como o rio que desta fonte nasce e que, descendo, nos alcança, sem cansar, até o fundo do abismo da nossa miséria. Visualizam o Espírito Santo como a água, o mar imenso do Amor do Pai, no qual somos mergulhados, fecundados, regenerados. “Considerai o Pai como fonte de vida; O Filho como rio que nasce; O Espírito Santo como mar, pois a fonte, o rio e o mar tem a mesma natureza” (São João Damasceno).

Assim, o Pai pode ser representado como Infinita Gratuidade, que se doa incessante e independentemente de nossa resposta, do que somos ou fazemos. Podemos pensar o Filho como Gratidão Infinita, pois Ele acolhe e nos revela este Amor e dá graças ao Pai por nós e em nós, com eterno louvor de sua glória: “Eu te louvo, ó Pai… porque assim foi do teu agrado” (cf. Mt 11,25-26). O Espírito Santo seria, então, a própria graça de Deus que age em nós de forma eficaz e poderosa. “Ele é o Senhor que dá vida” (cf. 1Sm 2,6).

Esse mistério é tão alto, e ao mesmo tempo tão simples! De fato, o nosso Deus é simplesmente “Amor”! “Deus é amor, quem está no amor está em Deus e Deus está n’Ele” (cf. 1Jo 4,16b). Mistério tão profundo que nunca terminaremos de contemplar e compreender.

Toda a Bíblia, toda a história da salvação é a história do Amor de Deus que nos precede, é a história da nossa miséria, do nosso pecado e das contínuas e inumeráveis intervenções do Amor Misericordioso do Pai, que não cansa de nos perdoar. É em Jesus, porém, que se manifesta o cume deste Amor, a plenitude desta aliança de misericórdia, a realização da Promessa:

De fato, Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17).

Nunca repetiremos esta verdade suficientemente. Ainda não a entendemos e proclamamos como convém.  E enquanto isso, o demônio, como espírito acusador, tentará tornar-nos cegos e surdos perante a revelação deste Amor: Jesus “não veio para condenar, mas para salvar os que estavam perdidos” (cf. Jo 3,17); “Não veio para os santos, mas para os pecadores, não para os sãos, mas para os doentes” (cf. Mt 9,13). Assim dizia Jesus para Santa Faustina: “Minha filha, escreve que, quanto maior é a miséria de uma alma, tanto maior é o direito que tem à minha Misericórdia… convida todas as almas a confiar no inconcebível abismo da Minha Misericórdia, pois desejo salvá-las todas” (Diário nº 12).

O Papa Francisco nos recorda que “Deus nunca cansa de nos perdoar, nós é que nos cansamos de pedir Sua Misericórdia” (Angelus, 17 de março de 2013). O Papa chega até mesmo a inventar um termo belíssimo para expressar esta característica do Amor do Senhor que sempre nos precede. Ele diz: “Jesus nos procurou primeiro… Ele é o primeiro, sempre. Ele nos “primeireia”. Quando nós chegamos, Ele já chegou e está à nossa espera” (Angelus, 31 de julho de 2013).

Olhando para o Cristo, manifestação encarnada do Amor do Pai, o termo que, a nosso ver, melhor expressa este Amor é o seu abaixamento, o descer de Cristo até o abismo da nossa miséria. Permita-nos esta expressão, o “infernizar-se” de Deus para nos salvar! De fato, Jesus desceu até o inferno para livrar-nos do inferno que nosso pecado merecia. Desceu do céu no seio de uma criatura, assumindo a limitação da carne, da história, cultura, tempo, espaço, assumindo nossas enfermidades, iniquidades, pecado, condenação, carregando no seu corpo nossas misérias e nossas chagas (cf. Is 53,1ss). Desceu numa gruta, nasceu no meio dos animais, numa manjedoura, fez-se menos que gente; “sou verme e não homem” (cf. Sl 22,7). Na Eucaristia, Ele se fez “coisa”, alimento para nós, que vivíamos como bestas, para tornar-nos filhos de Deus. “Desceu com eles para Nazaré e era-lhes submisso” (cf. Lc 2,51). Desceu no meio dos pecadores no rio Jordão para ser batizado, desceu no meio dos excluídos, impuros, leprosos, endemoniados, doentes;fez-se servo e escravo dos seus próprios discípulos se abaixando para lavar-lhes os pés. Só subiu na Cruz, onde no cume do abandono, do desprezo, da dor, manifestou-se como Misericórdia: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (cf.Lc 23,34).

Não pediram perdão a Jesus, nem quem o crucificou, nem Judas, nem o próprio Pedro. E Ele os perdoou, perdoou a todos, pois Ele é perdão! Não podemos parar de meditar o mistério da Cruz, escola do Amor Misericordioso em que se formaram os santos. Olhando para a Cruz, poderemos sentir que Ele nos diz como para Santa Gertrudes: “Veja meu corpo, veja minhas chagas, meus membros esticados pregados na Cruz! Tenha certeza de que se necessário fosse, eu voltaria a nascer e a morrer só para salvar-te”.São Bernardo chega a dizer-nos que o Pai, não sabendo como expressar todo seu amor, enviou ao mundo seu Filho, como um pacote, repleto de Misericórdia, que se rompeu na Cruz para derramar sobre todos, e para sempre, a sua Misericórdia.

De fato, Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3,16-17).

Como vivermos então esta Palavra? Primeiramente deixando-nos alcançar pelo perdão de Cristo, deixando-nos lavar pelo Sangue e Água que correram de Seu lado aberto. Deus não se envergonha de nós, portanto não tenhamos vergonha d’Ele. Deixemo-nos alcançar por Sua Misericórdia. Façamos uma profunda revisão de vida e, se percebermos que há algum pecado que até hoje não tivemos coragem de confessar, humilhemo-nos na Presença do Senhor, confessemos com confiança, pois Ele se humilhou mais do que nós, desceu mais baixo do que o demônio possa ter nos afundado com o pecado! A Misericórdia do Senhor nos alcança até no fundo do inferno que mereceríamos por nossas culpas.Em segundo lugar, desçamos com Cristo até os porões da existência humana, até os “infernos” de morte em que jazem tantos de nossos irmãos que ainda não conheceram o Amor do Pai. Como dizia o Papa emérito Bento XVI: “Deus é amor e por isso o curvar-se, o abaixamento que o amor nos pede é, ao mesmo tempo, a verdadeira ascensão. Justamente assim, abaixando-nos, alcançamos a altura de Jesus Cristo” (Homilia, Missa de Pentecostes, 15 de maio de 2005).

Testemunhava uma das nossas missionárias: “Enquanto estávamos dormindo na rua, no frio, na sujeira de uma calçada, percebendo o desprezo do povo que passava por lá, um irmão de rua me disse: ‘sabe qual é a nossa maior alegria? É quando vocês missionários estão conosco. Sentimos que Deus não nos abandonou, nós vemos o Senhor que, em vocês, nos visita e nos diz que nunca desiste de nós, nunca desiste de nos amar’”.

O convite é voltarmos ao primeiro amor, este Amor Misericordioso que alcança a miséria humana. Este desejo foi confirmado por meio das palavras que uma intercessora sentiu como que dirigidas a cada um de nós: “A comunidade deve ser a luz que ilumina as trevas. Onde a comunidade está deve procurar os lugares mais escuros, aonde ninguém quer ir, para lá levar a misericórdia, levar este facho de luz. Assim como São José, que com todo amor e zelo, arrumou e limpou a gruta que era suja e escura, para receber Jesus – assim vocês devem fazer, limpando e iluminando os lugares mais sujos e baixos para que possam receber Jesus. Não somente os lugares físicos, mas também muitos corações”. Preparemos nossos corações para recebermos Jesus Menino em nossa pequena e suja gruta!

Pe. Antonello Cadeddu e Pe. João Henrique

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Deus os abençoe!

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